sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Rage


PELO PRESENTE, FAÇO SABER A
QUEM INTERESSAR POSSA QUE:

NESTE DIA, 27 DE AGOSTO DE 1976, CHARLES EVERETT DECKER foi julgado culpado, pelo Superior Tribunal de Justiça, de homicídio doloso contra Jean Alice Underwood, e também julgado culpado neste mesmo dia, 27 de agosto de 1976, de homicídio doloso contra John Downes Vance, seres humanos.
Foi determinado por cinco psiquiatras estaduais que Charles Everett Decker não pode, nesta ocasião, ser julgado responsável por seus atos, por razões de insanidade mental. Decide por conseguinte esta corte de justiça que ele seja recolhido ao Augusta State Hospital, onde deverá ser submetido a tratamento até que seja oficialmente declarado responsável, a fim de responder pelos atos que praticou.
Dado e passado nesta data.


(Assinado)
Samuel K. N. Deleavney
Juiz de Direito




"Não tenho pesadelos há quase duas semanas. Armo um bocado de quebra-cabeças. Dão-me creme, que odeio, para comer, mas como, ainda assim. Eles pensam que eu gosto. De modo que, novamente, tenho um segredo. Finalmente, tenho um segredo outra vez.
Mamãe enviou-me o anuário da escola. Não o desembrulhei ainda, mas talvez faça isso.
Talvez na próxima semana. Acho que poderia olhar para as fotos de todos os formandos e não tremer nem um pouquinho. Antes de muito tempo. Logo que eu consiga me convencer de que não haverá listras pretas de tinta em suas mãos. Que as mãos deles estão limpas. Sem tinta. Talvez, na próxima semana, eu me convença inteiramente disso.
A respeito do creme: é apenas um pequeno segredo, mas ter um segredo faz com que eu me sinta melhor. Novamente como um ser humano.
Este é o fim. Vou ter que desligar a luz agora. Boa noite."




sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Felix Felicis

A carta fora achada. Ele cravou a carta no seu travesseiro com a caneta que provavelmente teria usado para escrevê-la. No rádio tocava uma compilação de músicas do Copeland e a não ser pela música e a densidade da cena de uma carta que fora cravada em um travesseiro com uma caneta, a casa estava exatamente como sempre fora. Tinha coisas jogadas pelo chão por cima de outras coisas, insetos por todos os lados. As marcas de infiltração na parede mais pareciam obras de arte outrora pintadas pelos seus próprios olhos quando passava horas apenas conversando com Valérie e olhando para as paredes. Algumas das marcas pareciam ao mesmo tempo demônios de sua mente e indefesos animais a passear pelo cimento umedecido.

“Como a mente pode reagir quando por mais que você tente se convencer que ainda tem razões suficientemente boas para continuar a viver, a vida insiste em pregar na sua cara o quadro da solidão? Você pode sim, muitas vezes comprar um kit de felicidade instantânea e se sentir como se tivesse tomado Felix Felicis onde por alguns minutos, você se sente muito melhor. Por fim acabo achando que heroína e o amor são a mesma coisa. A mesma ilusão, a mesma maravilhosa sensação de mentira que dura apenas minutos. Corrijam-me se eu estiver errado, quando nos encontrarmos no inferno!



Dionísio”